Felino, guerreiro e uma das caras (e mãos) da mística do Benfica, Manuel Bento tornou-se no senhor das redes do Glorioso ao longo de quase duas décadas, tendo conquistado, no total, 16 títulos. Razão para dizer que é... obra. E só não ganhou, igualmente, a Taça UEFA, porque o Benfica perdeu a final diante do Anderlecht, no início da década de 80. Seria o merecido reconhecimento europeu para uma brilhante carreira onde, entre milagrosas defesas, conseguiu estar 1290 minutos consecutivos sem golos sofrer. Mas mais que sofrer, até chegou a marcar golos (de penalty) em eliminatórias europeias. O “Homem de Borracha”, como lhe chamavam os jornalistas britânicos também se tornou conhecido pelo mundo fora, tendo defendido as redes lusas no electrizante EURO 84 e no Mundial 86, embora aí tenha vivido a fase mais melindrosa da sua carreira, quando contraiu uma grave lesão num dos treinos realizados após a vitória por 1-0 sobre a Inglaterra. Rude golpe para uma Selecção que não mais se endireitou, perdendo com a Polónia e Marrocos e regressando a casa sob o estigma de “Saltillo”. A sua carreira “durou” até à década de 90, despedindo-se dos relvados, mas seguindo o seu caminho no mundo do futebol enquanto treinador. Reencontrou, no entanto, a felicidade ao serviço do futebol juvenil do Benfica, onde era treinador de guarda-redes. Fica a sensação que tudo acabou cedo demais, mas se olharmos bem para os 58 anos de vida e mais de 40 de carreira de Manuel Bento, então não podemos deixar de concluir que se despediu da vida pela “porta grande”.Para a história:
• Manuel Galrinho Bento
• Golegã, 25 de Junho de 1948
• Guarda-redes
• 18 épocas no Benfica (1972-90)
• 466 jogos
• 8 Campeonatos Nacionais, 6 Taças de Portugal e 2 Supertaças
• 63 Internacionalizações
O que disseram os amigos:
Manuel Vilarinho (presidente da Mesa da Assembleia Geral do Benfica)
«Recordo muita valentia. Recordo um jogo de Famalicão, em que levou 24 pontos na cabeça. Meteu a cabeça onde muitos não metem o pé. Lembro a sua categoria como guarda-redes, apesar da sua estatura não ser a de um guarda-redes. Um bom homem, um bom benfiquista, que sempre se dedicou ao clube de alma e coração.»
Nuno Gomes (jogador do Benfica)
«Perda irreparável para a família benfiquista. Era uma pessoa muito simples e das que mais sentia a camisola e incutia a mística do Benfica. Estamos tristes porque é um amigo que se perde nesta família benfiquista, com uma carreira fantástica no clube e na selecção.»
Shéu Han (secretário-técnico do Benfica)
«O Benfica perdeu um dos seus símbolos. Bento era um colega, um irmão, um familiar, com o qual partilhámos muitos bons momentos e outro menos bons. Foram tempos felizes no dia-a-dia e Bento era um dos protagonistas principais. Não me conformo com esta notícia. Tenho dificuldade em encontrar um guarda-redes tão bom como Bento. O Bento era capaz de ganhar para nós quatro ou cinco jogos.»
Silvino (antigo jogador do Benfica)
«Foi um grande profissional e um guarda-redes fantástico, que adorava trabalhar. Era baixo, mas não tão baixo como muitos podem pensar. Ainda assim, era muito eficiente, porque era muito rápido e não tinha problemas em sair e socar a bola. O que fazia com as equipas inglesas era fantástico. Em termos de trabalho, era um exemplo. Motivou-me de tal maneira que, se calhar, muito do que fiz devo a ele, que obrigava os seus suplentes a trabalhar duramente.»
Toni (antigo treinador do Benfica)
«É um murro no estômago. Já não o via há três, quatros anos e ontem estivemos juntos. Quando falávamos dos tempos passados disse-me que o que tínhamos de fazer era aproveitar e desfrutar a vida.»
Humberto Coelho (antigo jogador do Benfica)
«Mais do que o extraordinário guarda-redes, que marcará para sempre a história do Benfica e da Selecção Nacional, era um grande amigo e companheiro. É um dia muito triste.»
Diamantino (antigo jogador do Benfica)
«O melhor guarda-redes português de sempre. Só com um braço valia mais que todos os outros juntos. Quando viajávamos de autocarro com ele do Barreiro para Lisboa, aquela meia-hora era melhor do que qualquer programa de humor.»
Jaime Pacheco (treinador do Boavista)
«Bento foi o melhor guarda-redes português de todos os tempos. Já disse em tempos, mas hoje volto a frisar, foi o melhor guarda-redes de todos os que conheci e joguei com o Vítor Baía e o Damas, por exemplo. Tinha um carácter forte e era terra a terra. Sempre foi um homem frontal e honesto.»
João Pinto (antigo jogador do FC Porto)
«Um homem humilde e espectacular. O futebol português perdeu mais um pouco da sua história. Foi meu adversário, mas acima de tudo um grande amigo e companheiro na selecção nacional. Tenho muitas histórias com ele. No caso Saltillo deu a cara perante todos. Representou a selecção nacional de forma exemplar.»






















